Não me peças para parar, não consigo parar de pensar! Estratégias Escolares para a PHDA
Quando chega janeiro, chega com ele um novo ano. Novas agendas, novas rotinas e a necessidade de organização e ordem. Para muitas crianças pode ser um desafio, mas para uma criança com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), a necessidade de organização choca com a sua neurobiologia. "Já te disse para parares quieto", "Senta-te direito na cadeira","Presta atenção". Isto são palavras que ecoam em muitas salas de aula de muitas escolas e até em algumas casas.
Pedir a uma criança para parar quieta é como pedir para correr uma maratona sem respirar, aguentando o fôlego. Simplesmente não vai funcionar. Imaginemos o seguinte cenário: Ter uma reunião de 2 horas seguidas onde não podemos cruzar ou movimentar as pernas, coçar o nariz, mudar de posição na cadeira ou verificar o telemóvel. Em 10-15 minutos só estaremos focados numa coisa: desconforto. Manter a atenção no orador torna-se muito difícil.
É o que pedimos diariamente a uma criança com PHDA, com a condicionante de terem cérebros ainda em desenvolvimento. Então e se nos propusermos a olhar para esta situação de um ponto de vista diferente? Muitas vezes, por desconhecimento, pais ou professores entendem que as crianças são "mal-educadas"; ou desinteressadas quando lhes pedem para parar com as pernas, mas, passado alguns minutos, estão a mexê-las novamente (recordemos o correr a maratona e manter o fôlego). Acontece que o cérebro de uma criança precisa de energia para funcionar (estimulação), para se manter acordado e para se manter focado. Uma criança com PHDA tem a parte do cérebro responsável pela concentração (córtex pré-frontal) "meio adormecida", ou seja, com menor atividade cerebral.
Recorda-se daquelas lanternas que temos de agitar para conseguir que iluminem? Com estas crianças estamos perante um fenómeno semelhante. Ao mexer as pernas, as mãos ou outra parte do corpo, a criança está a gerar energia para se conseguirem concentrar. Usando as lentes da neuropsicologia, esta agitação não é um desafio à autoridade mas sim um sinal. E a organização?
Entrar em janeiro e retomar as rotinas na escola exige readaptação e organização. Ora, um cérebro com PHDA não é que seja "desleixado", mas tem dificuldade ao nível das Funções Executivas, que são o Maestro do cérebro, aquele que dirige, planeia, antecipa e, claro, organiza. Conseguir ter um caderno bem organizado, sem folhas de exercícios ou material escolar caído no fundo da mochila, é um desafio bastante difícil. O cérebro PHDA não sabe distinguir o que é essencial do que é acessório. Outras vezes, o esforço mental (custo cognitivo) para terminar uma tarefa foi tão grande que já não restou combustível para a organização final.
Não é desleixo, é exaustão cognitiva. O resultado? Uma mochila desorganizada. Então como podemos trazer a teoria à prática?
Na nossa cultura, ainda tendemos a associar que um bom aluno em sala de aula é aquele que está quieto. Achamos que estar imóvel é estar atento; e que estar em movimento é indisciplina. Países mais avançados e exemplares na educação, como os países nórdicos, inverteram esta lógica há muito tempo, alcançando muito bons resultados. Nestes países, as pausas frequentes e os momentos para movimentar pela sala não são vistos como perda de tempo, mas sim estratégias de rentabilização cognitiva. Esses países estão mais alinhados com o que nos diz a neurociência e entendem que o cérebro aprende melhor quando o corpo está ativo ou em movimento.
Então, podemos, naturalmente, fazer a nossa parte e inverter a nossa perspetiva sobre a agitação e a desorganização. Se o cérebro das crianças, sobretudo aquelas com PHDA, não se regula sozinho, é importante que o adulto aja como "regulador externo", seja como pai, professor ou escola. Nesse sentido seguem-se algumas estratégias sugeridas com base naquilo que nos diz a neuropsicologia:
- Cantinho Terapêutico: Criar um espaço na sala com alguns objetos fidget toys discretos como uma bola anti-stress, uma massinha ou uma pedra lisa. É de extrema importância que este cantinho tenha um nome simpático (Ex: Cantinho Amigo) e sobretudo não seja visto como um local de castigo ou de conotação negativa, mas, antes, um espaço onde a criança possa pedir para ir, ou o professor sugerir que vá, no sentido de "recarregar baterias"; por muito breves minutos. Estes objetos fornecem estímulo suficiente para acordar o cérebro adormecido, mas com a particularidade de não serem demasiado interessantes que passem a ser uma distração ou que incomodem os colegas;
- Pausas Ativas: Se vê que o aluno está desligado, peça-lhe que faça pequenas tarefas como apagar o quadro, distribuir fichas ou ir buscar/levar alguma coisa à secretaria. Estes minutos servirão para reiniciar o foco, o que vale mais que vários sermões ou chamadas de atenção;
- Segmentação de tarefas: Tente não expor a criança a um texto grande ou a uma ficha cheia de exercícios por inteiro. Por exemplo, utilize ou incentive a criança a pegar numa cartolina e a ir destapando os exercícios à medida que os realiza. Isto reduz a ansiedade e reduz a sobrecarga cognitiva, bem como a propensão para a dispersão;
- Lugar "Farol": Sentar o aluno na primeira fila da frente pode ser uma medida positiva e é amplamente utilizada pelos professores, mas colocá-lo num local estratégico junto ao professor, que agirá como um "farol", alcança melhores resultados. Isto permitirá um melhor vínculo com o professor que, com um simples toque no ombro ou um olhar, conseguirá reconduzir a atenção do aluno.
- Mãos e pernas ocupadas: permitir o uso de fidget toys. Experimente deixar a criança rabiscar sem ficar preocupado que esta esteja distraída. Rabiscar pode ajudá-la a filtrar melhor a voz do professor. Existem estudos que provam que pessoas que rabiscam durante tarefas auditivas monótonas conseguem reter até 29% mais informação do que as que não o fazem.
Contudo, é importante saber distinguir o rabisco útil (monótono, aleatório, repetitivo e com olhar visual intermitente no professor) do rabisco não-útil (desenhos complexos ou figurativos). Estas, claro, são algumas das muitas medidas que podem ser aplicadas à luz da neuropsicologia. Contudo, é importante alertar que estas estratégias terão pouco efeito se aplicadas isoladamente. O verdadeiro sucesso na integração e intervenção com a PHDA acontece quando a Família, a Escola e a Clínica formam uma equipa sólida, que comunica e rema no mesmo sentido, validando o esforço da criança em vez de apenas apontar a falha. Sim, janeiro pede organização, é certo.
Mas, talvez, mais urgente do que organizar a mochila, o estojo ou a postura, seja organizar o nosso olhar sobre estas crianças. Ao mudarmos a nossa lente, deixamos de ver a agitação como um problema de comportamento e passamos a vê-la como um pedido de regulação a que devemos atender com as estratégias e a empatia necessárias. Não queremos trabalhar para ter crianças imóveis. Queremos é que elas sejam imparáveis.